Ainda é vivo em minha memória o fato de, a então prefeita de São Paulo, Luíza Erundina – nos idos dos anos oitenta – determinar a alteração das placas na sede da Prefeitura de São Paulo, ainda localizada dentro do Parque do Ibirapuera, para indicar seu gabinete como “Gabinete da Prefeita”.
Diria que este foi o meu despertar para a língua portuguesa! Pois sim: a partir de então passei a ler com interesse pessoal assuntos relacionados ao vernáculo. Justo eu, um péssimo aluno de línguas (quaisquer que fossem), desejei ter um domínio minimamente aprofundado do complexo mecanismo formal de comunicação lusitano utilizado no Brasil.
Isso tinha uma razão de ser, admito. Instintivamente supus que a aplicação de recursos públicos para cumprir um formalismo como aquele era – no mínimo – decepcionante, quanto mais em função de a cidade jamais ter sido dirigida por uma pessoa do sexo feminino, tampouco – ao que me constava – por um grupo político verdadeiramente de esquerda que surpreendentemente derrotara o ícone do conservadorismo naquele período, Paulo Maluf.
Chamá-la de Prefeita, de fato, era compreensível, contudo, o cargo – para mim – era o de Prefeito, o de gestor da municipalidade. Mas, pelas regras ortográficas, gestor era palavra masculina, cabendo a versão feminina, gestora. O mesmo aplicava-se a Governador. Minha angústia diminuiu quando pensei acerca da presidência: intui que nesse caso discussão seria inócua já que, da acordo com o dicionário, Presidente era expressão neutra, comportando ambos os gêneros.
Mais de uma década depois, um professor de língua inglesa (americano e recém desembarcado no País), expressou sua dificuldade em aprender o Português. Pedi que ele dissesse quais eram os pontos mais complexos ao seu ver e surpreendentemente tratou da questão do gênero das palavras.
Dei-lhe a explicação que recebera ainda no pré-primário, palavras terminadas com a vogal “o” são masculinas e com “a”, femininas. Retrucou-me de imediato: e direção, profissão, mão, guidão, esfregão, bebê, sofá, professor? E foi mais adiante, como saber se algo está no plural? Interrompi-o, essa era fácil: basta verificar se a palavra acama com a letra “s”. O insuportável Yankee foi certeiro: e o lápis?
Admiti, nossas regras, mesmo as mais simples, eram complexas, com muitas exceções, mas seria esta a verdade? Infelizmente não!
Mais uma vez, vi-me impulsionado a compreender um pouco mais do idioma pátrio.
A língua oficial do Brasil é baseada na etimologia da palavra, ou seja, suas regras não são próprias, mas emprestadas de outras línguas das quais ela, a portuguesa, pretensamente baseou-se. Pretensamente, isso mesmo! Na realidade, o Português deriva do espanhol ou castelhano e não diretamente do latim, ou do grego antigo. Em síntese, seria possível afirmar que não há regras, mas convenções baseadas em complexa busca da exegese de cada uma de suas expressões, o que a tornou uma das mais difíceis para se ensinar, ou escrever!
Compreendido isso, resgatei de minhas lembranças a polêmica acerca da Prefeitura: ora, não seria fantástico se o Português tivesse o neutro, assim como o inglês, isso sem falar do latim? Pois é, novamente lembrei-me da expressão Presidente e fiquei encantado, pensando: já imaginou se a vogal “i” passasse a ser o artigo neutro, assim poderíamos dizer i bebê, i lápis, i Governador, i Presidente e no caso de palavras terminadas em “o” ou “a”, i Prefeiti, i Advogadi, i Dentisti. Bom, seria uma loucura, mas uma loucura politicamente correta e em linha com a igualdade de gênero.
De qualquer modo, cônscio de minha limitação e desconhecimento, cessei minhas especulações acerca da evolução linguística portuguesa, mas com um único alento: quando tivéssemos uma presidente, esse tipo de discussão não voltaria à baila... pobre de mim!
