Último jogo da semifinal do Campeonato Paulista de 2009. Convidados para assistir a partida no camarote de uma empresa de bebidas, chegamos alguns minutos atrasados no hotel onde partira o último transfer para o estádio Cícero Pompeo de Toledo, o Morumbi.
Ainda em frente ao hotel, encontramos um casal que – do mesmo modo – perdera o horário. Em função disso, dividimos a corrida de taxi para o estádio, já que todos voltaríamos no serviço de transporte da patrocinadora de tal camarote.
Por diretriz de segurança pública, a quota reservada para os torcedores dos adversários do São Paulo Futebol Clube era de algo próximo a 5%: praticamente uma partida de uma só torcida.
Ao chegarmos ao estádio, acabamos por seguir numa área isolada para os torcedores do Corinthians, contudo o acesso que deveríamos utilizar situava-se em local destinado à torcida dos mandantes.
Assim, caminhamos alguns metros ainda através dos corinthianos, mais adiante, por entre o cordão de isolamento da polícia militar, inclusive de sua montaria, para – após outros tantos poucos metros – adentrarmos na porção reservada aos são paulinos.
Chamou minha atenção o fato de alguns torcedores do Corinthians, num verdadeiro front, esbravejavam provocações, com ameaças à integridade física dos adeptos da outra equipe, entoando hinos de desordem, a poucos centímetros da linha de policiamento. Como não poderia deixar de ser, um cenário rigorosamente idêntico ocorria no lado do São Paulo, sem que eu percebesse qualquer repreensão ou atitude dos guardiões da ordem pública.
Já dentro do estádio, pude observar a evolução da infra-estrutura ocorrida naquela arena esportiva. Tal camarote localiza-se atrás dos assentos da geral, no anel inferior do estádio, local destinado a torcedores portadores de dificuldade de locomoção etc., o que implicava numa pacífica convivência de torcedores de ambas as equipes. Coincidentemente, o quinhão reservado aos corinthianos era o do anel superior, eminentemente acima àquele, o dos com dificuldade de locomoção.
Em virtude de sua arquitetura, as posições mais próximas ao gramado da arquibancada inferior podem ser atingidas por objetos lançados dos anéis superiores, possibilitando – inclusive – contato visual direto dos que se encontram nas porções superiores com os situados mais abaixo.
Pouco antes do início da fatídica – para os tricolores – partida, eu e meu amigo saímos do camarote e ficamos próximos ao gramado, isso em meio aos torcedores da geral. Obviamente, em poucos instantes alguns corinthianos passaram a nos provocar, isso pelo fato de que eu – naquele momento – vestia a camisa do São Paulo. Meu amigo, corinthiano nato, achou graça e ficamos por mais alguns instantes observando a movimentação. Ocorre, porém, que notei um crescimento rápido da agressividade das ofensas e pude perceber que alguns dos torcedores comportavam-se com ares de inimigos figadais. Por prudência retiramo-nos daquela área, evitando qualquer sorte de contrariedade que pudesse afetar tarde tão festiva.
Logo após isso, observei um torcedor são-paulino provocando o mesmo grupo de corinthianos o qual, por fortuna, não recebeu nada além de algumas cusparadas.
Tais eventos serviram para que eu refletisse e tecesse as seguintes ponderações:
Considerando a teoria da One Broken Window que embasou programa de Tolerância Zero implementado pelo então prefeito da cidade de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, segundo a qual, num bairro pobre onde todas as janelas das casas estavam intactas, estas assim se preservavam, indefinidamente, contudo, caso uma delas fosse quebrada e não se realizasse o reparo prontamente, em curto período uma enormidade de janelas de outras residências da mesma localidade eram depredadas.
Isso demonstra que um grupo de pessoas ao perceberem a boa conservação de uma localidade comporta-se de modo pacífico, sem promover danos à propriedade alheia, sem criar maiores distúrbios. Por outro lado, este mesmo grupo ao notar a ausência de ordem, isso pela simples falta de manutenção em uma única janela, sente-se livre, ou desobrigado a seguir padrões ordeiros.
Naturalmente que os tumultos não ocorrem sem que haja um percurso, sem que se decaia a sensação de ordem de presença da organização social, a ponto de grupos agirem com agressividade tamanha, que – na prática – suas ações passam a ser quase que complemente instintivas, animalescas.
Tudo o quanto exposto, é de uma obviedade repetida à exaustão por diversas vozes, contudo, algo que me intriga é a ausência de determinadas ações que, do meu ponto de vista, seriam eficazes e permitiriam que todos pudessem compartilhar saudavelmente a paixão futebolística.
Ora, os torcedores que incitavam à violência, e entoavam palavras provocativas, de parte a parte, claramente cometiam crime de incitação ao crime, previsto – ou tipificado – em nosso Código Penal (artigo 286), algo que, conforme o estatuto do torcedor, pode implicar no impedimento de comparecerem nos estádios, ou nas suas proximidades por um período de 3 meses a 1 ano (artigo 39 da lei 10.671/2003).
Certamente cenas como as que presenciei na entrada do estádio são corriqueiras, tanto que o policiamento estava diligentemente posicionado. Assim, deveria haver uma equipe preparada para deter alguns dos torcedores que compunham os front– sem qualquer agressão física, senão a necessária para retirá-los daquele local – os quais deveriam ser autuados e indiciados pelo crime, bem como submetidos levados ao juizado especial, a fim de que fosse aplicada a penalidade prevista no estatuto do torcedor. Certamente haveria uma grande dificuldade de instruir processo crime contra os mesmos, porém, o simples fato de serem retirados da frente do estádio e se virem impedidos de assistirem ao jogo e, posteriormente, serem forçados a cumprirem trâmites burocráticos até que se vissem livres de maiores problemas judiciais, serviria para os mesmos e para algumas das pessoas que estivessem próximas, como um forte desestímulo para que se comportassem desse modo em outra oportunidade.
Além disso, dentro do estádio, o policiamento deveria identificar alguns torcedores, por meio de imagens gravadas, em áreas de contato entre as torcidas rivais, retirando-os das arquibancadas para que os mesmos esclarecessem seus atos. Tal inconveniente seguramente atrapalharia a diversão de uns poucos mais exaltados, gerando um ambiente de receio para os demais, que via de conseqüência, teriam um desestímulo à incitação de desordem.
Tenhamos em mente que nós brasileiros somos cordiais e, certamente, tais torcedores convivem durante os dias úteis entre si, isto é, essa agressividade está relacionada com a aglomeração de torcedores.
Portanto, se tal ação fosse bem organizada e contasse com supervisão qualificada, focando em potenciais líderes das torcidas, seria um medida que rapidamente traria um ambiente mais pacífico, sem que houvesse a necessidade de aplicação de força excessiva, tampouco número elevado de prisões. Bastaria fazer sentir a todos que há ordem que há a presença do estado de direito.
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